Um professor e um aluno, ambos da Universidade de Brasília, mantiveram por e-mail o seguinte diálogo, cuja publicação o aluno consentiu sob anonimato:
Aluno: Gostaria de ouvir comentário do Sr. a respeito do seguinte.
Desde que entrei na UnB venho ouvindo de alguns professores da computação que seus alunos estão cada vez menos empenhados em suas disciplinas, que cada vez mais os alunos só se enteressam em tirar um MM e conseguir os créditos. Ouvi uma história de um professor que se frustrou de tal forma com a picaretice de seus alunos que não consegue mais olhar nos olhos dos alunos quando ministra suas aulas, e por ai vai.
Eu como aluno percebo o desinteresse dos colegas em relação a UnB. Esse fato, somado à frustação dos professores, estão me preocupando, pois parece que esse quadro tende a piorar, então eu fico me questionando. Será que tal aumento na picaretagem por parte dos alunos só tem afetado a computação, pois computação é um curso da moda e muitas pessoas que entram procurando perspectiva profissonal e podem se desiludir ao longo do percurso?
Será que isso é um ciclo e dentre em pouco nós os alunos voltaremos a levar a sério a computação? Será que é só culpa dos alunos ou existe algum fator que vem desestimulando a grande maioria dos estudantes? Obviamente a respota não é simples, provavelmente será uma combinação desses fatores somados a outros ainda, mas eu tenho duas teorias ainda não amadurecidas.
A primeira se refere a grande pressão que o sistema vem exercendo sobre os alunos de modo que esses prefiram empenhar-se em arrumar um estágio para, com sua remuneração, atender ao apelos consumistas cada vez mais fortes, o que os leva a simplesmente tentar conseguir um MM na UnB pois o estágio exige mais atenção.
A segunda teoria é mais paranoica mas tendo a crer que seja a mais correta. Imagino que exita um subconsiente coletivo que diz "pra que levar a sério essa UnB se os grandes ícones da sociedade fazem tudo pela metade, dão um jeitinho pra se dar bem em tudo e f***-se os outros, roubam na cara dura e saem livres e com toda a moral, pra que eu vou me esforçar se as intistuições estão falidas, agente tenta, tenta se esforça pra mudar as coisas, deposita nossa confiança nas pessoas e elas nos traem"...
Pode ser loucura minha, mas acho que existe uma frustação, um falta de fé no sistema como um todo, o que leva as pessoas a não se empenharem, pois sabem, inconscientemente, que não vão ter uma contrapartida justa por parte do sistema, ou seja "para q vou contribuir com uma sociedade que não valoriza o meu esforço?"
Não sei se me fiz entender, o que eu quero é saber quais as causas dessa falta de interesse e qual a solução, se existir? Obrigado por sua atenção.
Professor: Acho que suas duas teorias se aplicam, e que ambas se conectam pelo relativismo moral hoje imperante. A esse estado de coisas, cada um reage com o que construiu para si desde o berço. Inclusive e principalmente professores, por tenderem ao idealismo, pela profissão que escolheram.
Minha reação a esse estado de coisas foi tornar-me ativista (software livre, cidadania na era digital, etc.). Pode parecer uma atitude farisaica ou pueril para quem já tem emprego fixo, mas é o que dita a minha consciência. Talvez um dos motivos inconscientes de eu ter escolhido essa minha profissão, e esse emprego, foi o de poder assim preservá-la.
Doutra feita, racionalizar esse estado de coisas, acomodar-se a ele ou revoltar-se a êsmo seria, para mim, uma atitude moralmente imatura. Como professor de uma Instituição Pública de ensino superior sou pago também para pensar. E penso que, enquanto o relativismo moral e a hipocrisia resultante podem cooptar, podem também servir de combustível para as próximas lutas sociais. Daí, ao "clamar no deserto" da sala de aula, expondo a dimensão ética nas atividades profissionais para cuja formação me dedico, estou agindo como um professor que é também ativista social.
Na intercessão desses dois papéis um dos pais da democracia moderna, um dos homens que mais contribuiu para o senso de indignação e revolta que fomentou a revolução francesa, Montesquieu, na sua obra "o Espírito das leis" explicava: Num estado democrático de Direito, há que haver uma instância a mais, a Virtude.
Independente de leis, não se pode esperar justiça de homens que desprezam a Virtude. A busca do saber (no sentido de sofia e de episteme, não de doxa) [no nosso caso, saber não apenas como a criptografia pode ser bem ou mal utilizada, mas principalmente, os próprios valores morais com os quais se julga o que é bom e o que é mau uso dela] é uma virtude; subjugar-se ao relativismo moral, correndo o professor atrás só de salário e estabilidade, e o aluno atrás só de canudo e rodas de pôquer, jogadas no chão dos corredores da escola ou no cassino da mão-de-obra semi-acabada, não me parece que seja.
Guiar a conduta pela bússola auto-enganosa da estabilidade financeira pode parecer uma atitude realista, porém, ao mesmo tempo que uma tal estratégia pode ser localmente vantajosa, ela é também globalmente desastrosa. É uma armadilha de radicalismo ideológico encetada pelo fundamentalismo neoliberal. Leva a uma forma de conduta competitiva que hoje parece vencedora, mas que amanhã pode se tornar fardo ou grilhão, em momentos de ruptura social, ruptura que essa própria exacerbação individual, complacente e hedonista, cataliza. Platão dizia que a maior força escravizadora é a concupiscência.
E a História isso mostra, ciclicamente validando Platão, sem nenhum indício para crermos que dessa vez seja diferente. A evolução tecnológica precipita essas rupturas, como com os gregos, cuja sociedade de início foi a que melhor soube usar a primeira tecnologia revolucionária de TI, o alfabeto. E sem tampouco indícios para desprezarmos a distância que nos separa da próxima ruptura. A sociedade grega condenou à morte Sócrates, formalmente pelo crime de "perversão da juventude", para pouco depois sucumbir ao domínio do jovem Alexandre, que aprendera arte militar com Aristóteles para se formar herdeiro da Macedônia, nação que os gregos consideravam "bárbara".
Assim, cabe refletir: quem é que está cada vez mais aprisionado hoje? Os chefes do PCC, encarcerados pelo Estado, em presídios de segurança cada vez mais "máxima"? ou quem corre cada vez mais atrás da sua estabilidade financeira ou do poder, enredados pelo medo, nos labirintos de incertezas desse caos? No cenário global, troque atores e lugares pelos da hora e refaça mentalmente a pergunta. Talvez em tempos como esse, a estabilidade financeira não seja lá nenhum santo graal. Ou, em linguagem mais conhecida de desmotivados consumistas, nenhuma brastemp.